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Discurso em 4 de junho de 2012

Discurso em 4 de junho de 2012

“EUROPA EM CRISE: Renegociação da dívida. Solução federal”

EXPOSIÇÃO efetuada pelo AUTOR no final da SESSÃO PÚBLICA DE LANÇAMENTO DO LIVRO, realizada no ISCSP, Lisboa, em 4 de junho de 2012:

Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa, Professor António Nóvoa, Senhor Presidente do ISCSP, Professor Manuel Meirinho, Senhor Prof. Medeiros Ferreira; Senhor Prof. Eurico Figueiredo, Senhor Doutor Jorge Ferreira, Colegas, Alunos e Funcionários da Escola, Minhas Senhoras, meus Senhores, Amigos,

1.Permita-se-me, desde já, algumas palavras especiais.Ao Prof. António Nóvoa, Magnífico e prestigiado Reitor da Universidade de Lisboa, neste momento histórico de labor e entusiasmo pela fusão das duas Universidades. Dirijo-lhe votos de êxito total nesta fase do desafio, que terá de ser de verdadeira unificação funcional e não só de união de partes. É com gosto que o revejo neste ato. Já havíamos estado em atividades conjuntas. Não deixo de recordar o premonitório Seminário sobre a obra de JOSEPH STIGLITZ, que contou também com a presença do Dr. Jorge Sampaio.Ao Prof. Medeiros Ferreira, velho amigo e companheiro de atividades políticas em instâncias internacionais, insigne professor e ministro dos Negócios Estrangeiros do pós-25 de abril e peça fundamental do nosso processo de integração no Espaço Europeu, a manifestação do meu grande apreço pelo político, amigo e confidente de tantos momentos comuns e lutas no âmbito europeísta e no das instâncias da Cooperação para o Desenvolvimento ao nível da Assembleia Paritária dos países ACP-CEE, a quem muito justamente uma enorme quantidade de amigos e colegas, entre os quais me integrei, homenagearam há pouco nesta sua fase pós-docente, pelo exemplo da sua vida.Ao Eurico Figueiredo, aqui presente, autor do prefácio e a quem se deve o título deste livro, velho amigo de lutas políticas, desde logo no debate patrocinado pelo “Portugal Plural” ou em Congresso, como os realizados na Faculdade de Arquitetura do Porto ou no Centro Cultural de Belém, sob a égide da Cooperativa Contraponto, que ele fundou;

2.Estranharam alguns dos presentes que o livro tenha letra tao pequena.Confesso, desde já, que esta opção não foi para desmotivar leitores, com medo que pudesse, de outro modo, convencer muitos a perturbar o pensamento dominante.Deveu-se a um fator familiar: o meu filho, educado nas últimas décadas em escolas, em que dominam as teorias neoclássicas, sempre batalha comigo pelo que ele acha ser o meu anti-classicismo económico excessivo.E, astuto, disse-me: já sei que aí vêm mais ataques à necessária austeridade e ao neoliberalismo. Vais incomodar meio-mundo reinante.¿Porque não fazes como os grandes contratistas públicos ou privados?Os bancos, as seguradoras, as telecomunicações, os hospitais privados e outras grandes empresas, para não aborrecerem as pessoas, poem muitas partes dos contratos em letrinha pequena.E eu disse: bom! Já entendi: publico o livro com letra pequena, para dissuadir a leitura. Não leem, não se aborrecem comigo.Acrescentando: ¿Como escreves coisas desagradáveis com tanta visibilidade…Um Livro? Não sabes como faz o Estado, nunca ouviste dizer como são os contratos públicos, PPP, etc., em que o texto inicial do contrato são descrições, coisas normais, e o difícil, que se tem de escrever mas que se quer ver se não se lê (só uns malucos!), vai em anexos, e grandes anexos para serem mais herméticos e levar a desistir o comum dos cidadãos.Pensei: anexar no fim, a um livro tao pequeno!, não. Já entendi: faço anexos no fim de página; também grandes e aliás os pés de página ainda são mais pequenos do que o corpo do texto; poucos se atreverão!…Foi assim. Confesso que foi para não incomodar muita gente, desde logo os cidadãos e dirigentes míopes….*

II-Entrando no tema:

1.Eu sou, como muitos dos presentes, de uma geração que viveu o dilema de, ou ficar no país e sofrer a submissão a um dictat de guerra, exclusão da vida pública, imposição a valores irracionais, fora de época, ou emigrar e sofrer a distância das gentes, dos afetos e dos espaços umbilicais.Uns e outros, no fundo, à espera do fim de um regime já velho e que uma nova pátria renascesse. Terra de todos e para todos.Outro tempo. Outros momentos de tensão vital. De luta entre liberdade e ditadura.2.O homem ocidental no pós-guerra – e nós ainda colhemos, mesmo que mais tarde, já com a democracia, os frutos de avanço civilizacional – viveu esses frutos de um assinalável salto económico-jurídico-social.Isto associando habilmente Mercado, Estado e Sociedade, desenvolvimento económico-social, bem-estar, Estado democrático social, direitos fundamentais, centrados no princípio conatural à vivência da liberdade, do respeito pelos direitos laborais e sociais conquistados e pela dignidade da pessoa humana.Tudo assente numa GrundNorm, na Constituição, que em Portugal foi primeiro semi-negociada ou semi-imposta, mas que, depois de 1982, se foi tornando base do consenso e em geral respeitada.Mesmo que alterada, era-o desejavelmente num revivificar-se pela atualidade, num situar-nos num seu reinterpretar, assente na soberania geracional.Não era um impúdico rasgar de direitos ou um alterar sem procedimentos e contra a avassaladora vontade da sociedade.3.Hoje, pelo contrário, vivemos um sentimento de frustração democrática, a um tempo larvar, a um tempo recalcada, pela falsa crença, bem publicitada, de que não há alternativas à austeridade e ao desapossamento ilegítimo.De desilusão em desilusão, mudando ou não quem nos governa, face ao inadequado funcionamento geral, degenerado, de um sistema político-partidário, ainda novo no tempo histórico, mas já velho nos vícios copiados de outros; governação que nunca se sonhou tao ativa ou tao permissiva na sua capacidade de admitir virtualidades tao destrutivas do ser hodierno do homem ocidental, do homem europeu, do homem luso.Como se, neste não modelo de globalização e liberalização, a alternativa ao ocidentalocentrismo fosse apenas o contágio ao abandono dos valores civilizacionais sociais que este construiu!.

4.E assim, de novo, no nosso país, vivemos momentos de grande tensão.Agora, não já pela liberdade, mas pelos direitos, pelo rendimentos e patrimónios espoliados ou bloqueados a muitos trabalhadores do Estado e outros sacrifícios impostos às classes médias e às mais débeis. Avança-se rapidamente para uma tensão, já não contra uma ditadura, distante e esquecida, e por isso desvalorizada, mas contra uma democracia, que afinal também muitos descobrem agora que permite este estado de coisas, afirmadas como única solução. Qualquer política tem alternativas, pois se não houvesse alternativas na política, não se compreendia o interesse da democracia e da razão do poder da escolha. Sabê-lo, leva a culpar as opções concretas, os fautores que lhes deram origem ou não as sabem ultrapassar. Mas, em democracia, o poder afirmar e convencer a maioria, de que só há um caminho e que ele é contra tudo o que se sonha em democracia, se faz render apoio inocente ao poder instalado que o afirma, também coloca em causa o sistema que não viabiliza imaginação de alternativas.5.Vivemos, cada vez mais, esta perigosa tenção, que compara já a liberdade, num prato da balança, e o bem-estar, crescentemente confiscado, o dia-a-dia de uma maioria sacrificada para além dos limites materiais e de justiça aceitáveis, por parte do poder dito democrático, no outro.¿Como aceitar uma democracia em que a alternativa de homens e partidos não leva a alternativas de políticas?.Que esmaga de uma penada as expetativas: dos mais velhos aos mais jovens. Por uma crise que vem de fora. Por uma década de crise que vem de dentro. Do próprio funcionamento do sistema político de governo democrático. A que se seguem políticas anti-sociais, desprezando, assim, a própria dignidade do sacrifício com sentido. Porque o impõe só para poder acertar números e pagar dívidas, que a maioria não fez, nem teria querido, em ditadura e muito menos em democracia, tal como não quer esta pressa regeneradora de contas em termos brutais à custa do cidadão comum e não dos responsáveis, em que nem se quer tocar, culpas anulando culpas, corrupções empatando clarificações, erros presentes e futuros esperando perdão dos perdoados do passado. Importa perguntar:¿porquê esta austeridade brutal, só para vencer um número orçamental abstratamente fixado no âmbito europeu, e que, mesmo que seja meta desejável, justificável, em períodos normais, agora, em crise, no tempo recorde proposto, não tem sentido e será comprometedor do futuro, diretamente para a economia e reflexamente para as próprias receitas do Estado e para a capacidade futura de cumprimentos financeiros. Aqui como noutros países da nossa envolvente.Hoje, há o perigo de começar a esquecer-se o valor liberdade. Instala-se insidiosamente a descrença nas alternâncias eleitorais sem alternância de políticas, de conceções, de objetivos, de soluções.

6.Vão-se aceitando medidas de contra-revolução social, que nos dizem que são inevitáveis, mas, isso, já não impede que se deixe de acreditar nesta geração de dirigentes políticos, meros mensageiros, anunciadores e contabilistas.Que se demitem de governar a sociedade no seu todo e para o seu todo. E é isso a política. E reduzem o Estado à inercia real, no que é fundamental, perante os outros poderes nacionais e exteriores.E quando atuam, é para os sustentar, sem verdadeiramente os responsabilizar nem os reformar. Não para os questionar, os obrigar a repor, os criminalizar a sério e prontamente, mas para os servir. Sem impor a supremacia, de que falava São Tomás de Aquino, do bem comum sobre o bem individual, os interesses particulares dos mais poderosos e maiores possidentes.7.Somos dirigidos por uma classe política ocidental, que…sabe a fim de época… de grandes projetos que outros conseguiram imaginar e iniciar e ela nem sequer consegue defender e manter, quanto mais concluir, o que caberia ao seu tempo.Que lançou ou permitiu as condições para o renascimento de um capitalismo selvagem.O que tem permitido cavar, cada vez mais, o fosso social. Fomentando abissais diferenças de rendimentos e remunerações, com a fortuna concentrando-se em poucos, com a destruição de empregos e do social, em sociedades que já haviam provado um bem-estar ocidental, mais ou menos relativo, mas já adquirido.E isto sem nada de valor humano e social acrescentar às sociedades orientais de escravatura anterior.

8.O Estado foi convivendo com políticas fiscais liberais, o que não levou a aumentar investimentos ou a riqueza dos países que o fizeram, pois as margens significativas de capitais não captados voaram para outros paraísos, muitas vezes de mão-de-obra escrava, acabando apenas por comprometer os sistemas de educação e saúde públicas de décadas.Numa crise que perdura sem fim à vista, o que acaba por contar não são justificações duvidosas e promessas, mesmo que não fossem contraditórias sobre o bom futuro, mesmo que repetidas à exaustão, na falta de medidas corretas que alterem ou minorem a situação, propaladas por um mundo político-académico-jornalístico, questionável e não questionador do satus quo, melhor ou pior selecionados, melhor ou pior preparados,O que conta são os atos concretos de quem governa e a sua repercussão no dia-a-dia de quem é governado.

9.Confisca-se ou protela-se parte de ordenados de alguns e seus subsídios laborais e perdem-se habitações. Mas não as ações ou os grandes lucros financeiros recolhidos anteriormente, até com escandalosa antecipação da sua distribuição, para evitar impostos.Com o dinheiro do povo salvam-se logo bancos, banqueiros e credores, ex-políticos, mas não se salvam essas habitações hipotecadas, recheadas de cláusulas leoninas e formuladas com abuso de direito, nem os empregos nas famílias, nem se promove o dos jovens que preparamos para fazer avançar a nossa sociedade, nem o tecido empresarial, as PME….os investimentos reprodutivos, de efeito multiplicador, de alto valor acrescentado para o país, a economia….

10.Mantém-se a confusão e o despautério, quer de bancos putativos, quer de bancos comerciais, que se permitiu legalmente que se tornassem banca mista, de tipo comercial, com depósitos e teoricamente de apoios às empresas, mas podendo e atuando, livremente, aliciando os meros depositantes, enganando muitas vezes, para favorecer jogos financeiros e os chamados novos produtos internacionalizados, que usam e abusam, aconselham, compram e vendem, sem sequer saber o que significam e o que valem.E com lavagens de dinheiro e permanentes promoções de consumos desligados da realidade das nossas economias nacionais.

11.Que o Estado não controla, em nome de teorias de liberalismo económico, mas depois, Estado e causadores, esquecendo que liberdade vai com responsabilidade, não deixam de apresentar a dura e traumatizante fatura ao cidadão comum, cinicamente em nome do bem-comum: não o fazer teria sido pior para a economia e os cidadãos, dizem.O cinismo não está neste argumento correto, mas na prévia demissão voluntária para deixar enriquecer alguns e na missão invocada depois para levar ao seguro empobrecer de todos.

12.O mundo convive, hoje, com políticos -não cidadãos em serviço cívico-, mas homens transformados em classe social à parte, que o povo perigosamente vai considerando parasitária, quando não –pior ainda- corrupta, viciada por anos de permanência em funções de representação pública e serviço partidário.E que veio permitir, primeiro, os desmandos gananciosos de um capitalismo financeiro associal e a vitória de uma teoria liberal anti-social.

13.Políticos que não quiseram prevenir os erros dos agentes económicos.E depois saltam (com o dinheiro que não é seu, nem deviam dispor livremente e muito menos para além do razoável e em democracia sem o consentimento geral; e dinheiro que aliás não é só dos contribuintes em geral, mas também de certos cidadãos que já pagaram os seus impostos, fruto de seu labor, em claro confisco patrimonial) saltam para salvar os que antes mais lucraram com os seus desmandos e risco moral e que fomentaram as crises da Crise e agora continuam com jogos de notações, provocações de pânicos, pressões sobre a União Europeia, sobre os Estados, etc., para, de novo, terem acréscimos exponenciais das suas fortunas.

14.Temos políticos que vão atrás desta globalização, governados eles e governada ela pelos titulares das grandes fortunas mundiais.Temos políticos da União Europeia fracos, desorientados, propondo e calando, dominados pela impositividade dos Estados fortes do Norte.E temos dirigentes nacionais perdidos e obedientes, esquecendo que, antes de mais, antes de serem globais ou unionistas, são políticos de um Estado, de uma nação.Honrar compromissos não é permitir aviltamentos do seu povo, não é andar de corda ao pescoço.Não é querer que as oposições se anulem comprometendo-se sem governar.Não é querer que o povo pague sem responsabilizar.Nem é aceitar anómalos e não solidários dictates supranacionais.Ainda temos alguma soberania. E muito maior secularidade que os restantes países europeus.Ser mais pequeno e menos desenvolvido não retira necessariamente estatuto, altura, a quem não se baixe.Somos um Estado-Membro da União. Mas ser Membro não é ser servo ou súbdito. Neste aspeto, pena é que a atuação de DE GAULLE a nível europeu, que chegou mesmo à “política de cadeira vazia” (embora provavelmente, na minha opinião, não pelos melhores motivos), não tenha ensinado nada aos nossos atuais políticos. Perante os atuais egoísmos germânicos e em geral dos britânicos, e suas anteriores atuações e atuais opções erradas, o que não seria uma política de cadeira vazia, sobretudo se não apenas de um Estado, mas do concerto de todos os países em dificuldades do sul europeu e periféricos?

15.O mundo caminha para propiciar fortunas colossais a um punhado de grandes famílias capitalistas e, simultaneamente, compensar com rendimentos substanciais os Estados que os acolhem, permitindo a exploração dos seus cidadãos.Estes ganham, ao provocar a crise, com a inércia da política ou com políticas inaceitáveis; e ganham também com a crise, com o poder de os políticos disporem a seu favor do dinheiro daqueles à custa dos quais já haviam ganho anteriormente.

16.Face à demissão dos políticos desta geração, deixando que os mercados funcionem sem regras no essencial, incapazes de ter evitado a crise e não querendo preparar-se para evitar a sua repetição no futuro, embora continuando a confundir-nos com tantas outras normas, que criam a ideia não só de suficiência como mesmo de – e esta é real- hiperinflação normativa.Há, realmente, muitas leis e organismos, aquelas para confundir, estes para distribuir cargos e benesses. Mas faltam as que eram mais necessárias para as finanças e as economias, nacionais, unionista e mundial.

17.Permite-se e depois compensam-se gestões erradas assentes em excessos de risco moral, à custa dos depositantes, investidores e cidadãos. Sem controlo, com uniões económicas e globalização funcionando, em qualquer situação, em liberdade absoluta de circulação de capitais, com os políticos ocidentais às ordens dos tenores liberais e ao serviço dos grandes interesses capitalistas, permite-se, de um momento para o outro, sem aviso, com pânico fundado ou meramente soprado por interesses especulativos, a volatização de economias mais frágeis ou menos invadidas por capitais que, naturalmente, buscam a exploração fácil de mão-de-obra escrava.O mal, como já dizia Marx, acerca do século do início da revolução industrial, não é dos homens, é do sistema que o permite.

18.O mundo político ocidental demitiu-se de exigir uma globalização assente meramente nas vantagens comparativas relativas – e isso seria justificável.Ou seja, não temos uma unificação ou globalização num mundo sem batota competitiva, mas assente em baixo salários e em dumping social.Devíamos exigir pelo menos um mundo sem escravidão humana e com padrões mínimos do Estado Social ocidental e, portanto, uma concorrência internacional leal.Sem isso, estamos a negar que tivesse tido sentido esse desafio histórico plurissecular, pelo ocidente já vencido. Mas hoje a ser destruído, para, no futuro, ser algo seguramente a reconquistar, mesmo que com lutas, de novo, sangrentas.E com tudo isto, vão-se empobrecendo as sociedades ocidentais, com os seus capitais e empresas a deslocarem, sem qualquer entrave, as suas tecnologias e finanças para o mundo da, ainda, produção barata, escrava, ampliando-se rapidamente fortunas de alguns à custa dos rendimentos e impostos dos seus Estados de origem, que vão empobrecendo.

19.Os Estados mais fortes, designadamente os do Norte europeu, por isso mesmo os que mais beneficiaram com as liberdades económicas da CE, têm enriquecido à custa também dos países mais débeis do Sul e Periferias, e sem as devidas políticas expansionistas, sem aumentos salariais, despromovendo assim consumos e importações, criando pois balanças e rendimentos financeiros nacionais excedentários e desequilíbrios excessivos a nível da riqueza geral da União. Excedentes que, depois, para lhes dar uso, tiveram que enviaram para um sul carente, bastando para tal desvalorizar a taxa de juro e, assim, de novo com lucro, endividando-o ainda mais, face às ganâncias e irresponsabilidades dos agentes financeiros e às políticas laxistas dos governos deste espaço da União.

20.O projeto europeu não é democrático só porque é feito por países democráticos. Só o será se for feito por todos os países envolvidos e sustentadamente a favor de todos.A sua proclamada originalidade face às experiências federais, ou esconde o falhanço não assumido de um projeto, ou é um argumento dos Estados, organizações e interesses dos que beneficiam com as suas insuficiências, incoerências e falta de solidariedade federal. O momento presente demonstrou à saciedade que a Europa falhou como construção geral, em si mesma, e face à força de outros Grandes Espaços, hoje andando ou a duas velocidades, em muitos domínios, ou às ordens dos Estados mais poderosos.Que antes foram aliciando os Estados mais débeis com o dinheiro barato que lhe sobrava e com a crise no-lo exigiram rápido e caro.

21.Falhou pela falta de apoios necessários, insuficientes antes e descontinuados agora, aos Estados mais débeis económico-socialmente.Falhou ao permitir desviar (sem viabilizar compensações adequadas que não a atual austeridade às periferias), as riquezas de uns países a favor de outros, em vez de eliminar em geral as assimetrias de desenvolvimento que vinham aumentando e que esta austeridade compromete ainda mais e por décadas. Falhou ao avançar com estruturas que tocam no âmago das questões de soberania ou as podem questionar: uma deficiente União Monetária, um absoluto e -em certos momentos de crise- inadequado regime de livre circulação de capitais, e mesmo um Banco Central anti-democrático e estatutariamente pouco europeu.Falhou ao não ter uma efetiva política económica comummente assumida, democraticamente aceite por todos; ao ter esse pseudo-banco central, sem ter uma reserva federalizada e um real orçamento federal.Falhou ao não avançar com uma verdadeira unificação política entre Estados soberanos e portanto iguais.Não esta dita original, ao sabor de gostos e poderes dos Estados mais poderosos. Mas, segundo um dos modelos já experimentados e empiricamente convencedor.Falhou porque à Alemanha, demasiado forte na competitividade económica e no plano político, se lhe permitiu ter capacidade de impor os seus interesses sem contemplações, como ela finalmente revelou, pese o seu anterior histórico discurso europeísta.

22.O problema maior é que a Europa ou é uma construção global coerente ou não pode ser.E ou é uma UE ou sempre será desunião, como a história secular sempre o revelou, mesmo que disfarçada numa designada União.A UE chamou a si as consequências da crise moral e liberal do capitalismo americano e – aproveitando o momento errado para corrigir as próprias deficiências orçamentais dos seus Estados, mas sem corrigir as suas- impos austeridade, desempregos, decréscimos económicos, destruições do estado social.

23.É este o mundo europeu em que vivemos.De duas, uma: ou há ainda forças despertas e capazes de se rebelar contra os arautos do excesso de liberalismo e Estado mínimo, de um laissez-faire, laissez-passer, a nível mundial, europeu e nacional, e contra todos que o têm viabilizado: desde os políticos aos académicos e jornalistas, que, conscientemente ou não, de cabeças formatadas pelo ensino destas últimas décadas, acreditam nos seus falsos milagres ou servem os interesses que lhe subjaz; interesses, aliás, também já senhores da Grande Comunicação Social e influenciadores das orientações das grandes instituições académicas; ou um dia acordaremos a regressar de novo, numa escala nunca imaginada, à questão social, se não mesmo a governos populistas e a ditaduras curativas.De facto, se continuarmos pelo discurso da economia dominante, de flexibilidade em flexibilidade por razoes de competitividade global, então o caminho está traçado: vamos alinhar por baixo, no modelo chinês anti-social e anti-democrático.

24.A Europa foi vivendo ao longo de séculos na nostalgia de um desenho unificador e pacificador.Na contemporaneidade parecia ter percebido o irrealismo dos sonhos francês e alemão de um mundo centrado pela força militar em Paris ou em Berlim.Mas esta não é a única força que submete.Hoje, pode até nem ser a manifestação de “força” mais dolorosa para os povos, como o revela o momento presente.O último meio século europeu tem balançado entre uma via de instituições federais ocidentais, frustrada na Assembleia Nacional Francesa pelo gaullismo, então nascente, e o iter unificador funcional e paulatino de Robert SCHUMANN E Jean MONNET, até ao avanço, por um lado, de um JACQUES DELORS, equilibradamente intervencionista e evolucionista e, por outro, dos ataques liberalizantes de THATCHER, o Ato Único Europeu, os Tratados desde Maastricht, cujas configurações teriam sido outras se as posições do Tribunal da CE e o pensamento genuíno da Comissão de então não tivessem também de ceder ao liberalismo, às situações a la carte ou a castrações parciais, para não comprometer o futuro do projeto europeu.Hoje, vivemos muito dos erros anteriores da construção europeia, mas também novos problemas, que resultam da revelação da falta de espírito europeu e da solidariedade que se impunha.Exigem-se mudanças radicais. Não se vê uma vontade de as assumir.Que nos reservará o futuro?

25. Este texto, se no seu conteúdo aborda e enquadra temas em termos que valiam ontem e poderão valer amanha, de facto não deixa de ser a resultante de um pensamento situado na intensidade e preocupações daquele momento concreto em que é escrito, que nunca é o da publicação.Momento e sentimento que nos levou a acrescentar à pressa, com o texto já na Editora, a nota de apresentação, para transmitir o último grito de alma. Embora, aí, muito do que se afirma em termos rotundos, seja dito de modo quiçá extremado, não como analista tranquilo, mas mais como cidadão que quer sobretudo transmitir a perceção-deceção sobre os perigos e as fortes desilusões do momento.Procurando embora usar argumentos racionais e não proclamações meramente populistas, reconhece-se, no entanto, que, embora mais no estilo do que no conteúdo, aqui e ali, não deixou, recorrendo ao presente dos verbos em vez do condicional, de se usar um modo de expressar como realidade aquilo de que se tem medo e que apenas se pode conjeturar.Em causa, mostrar para onde os demissionários e incapazes poderes políticos nos poderão estar atirando.Onde acharam que exagerei com o que disse, peço apenas que procurem imaginar o que, nesta linha de orientação, os verdadeiros e interessados populistas poderiam e poderão, muito mais, sobre tudo isto, dizer; quis apenas que os mais despreocupados se apercebam da situação grave que vivemos e dos perigosos, se não mesmo incendiários, caminhos para que todos estes múltiplos governos, na União Europeia e não só, nos está levando….

26. De tudo isto, dos males, retidos e concentrados nuns momentos simplificadores, europeus e nacionais, e não só, falei no “Portugal Em Crise” e neste, “Europa em Crise”.Mais do que dizer o que pensava, o que alguém pensa, o que eu pretendi, agora, foi provocar reflexões abertas, mesmo que não favoráveis, mesmo que divergentes.Mas reflexões, debates. Dizeres contra silêncios que abundam.E também contra os excessos de verdades oficiais, quase diárias, de sábios e jornalistas da moda, já não falando dos políticos que nos governam, que nos inundam, abafam e nos estão a desconstruir.E depois se vão embora e nunca serão responsabilizados por nada.

III. Mais uma vez os meus agradecimentos ao ISCSP-UTL e seus dirigentes, ao novo Presidente, Prof. Manuel Meirinho, exemplo de dirigente eficientíssimo –não é por acaso que veio justamente ocupar recentemente o lugar que hoje desempenha-, por terem propiciado este evento editorial nesta casa.Aos apresentadores, Magnífico Reitor da Universidade de Lisboa e ao meu Colega e amigo dos Parlamentos português e Europeu, Prof. Medeiros Ferreira, por terem acedido ao meu pedido para se pronunciarem a propósito deste pequeno livro.Ao Prof. Eurico Figueiredo, que antes, com os temas do Portugal em Crise, e agora também com estes, mais do que me estimulou, diria mesmo, quase me obrigou a escrever, e sobretudo a viabilizar o seu lançamento em sessão pública, ao entender que ele podia propiciar um momento de serviço de cidadania, pois esta também se atua levantando a voz ou usando a escrita.Muito obrigado a todos.